quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Às onze e meia


Às onze e meia da noite
rastejam cobras na lama
onde afocinham as putas
Senhoras Donas da Cama.
Mas as putas que são putas.
Não as que têm a fama

Joaquim Pessoa

A Liga




“Louva-a-deus martins agarrou o marido pela cintura, enlaçou-o
ternamente, acariciou-o e fez amor com ele até atingir o orgasmo.
Depois, como é normal entre os louva-a-deus, ele, submisso
e resignado, entregou-se inteirinho para que ela o devorasse,
e assim sucedeu: louva-a-deus martins foi retraçando o companheiro
com os seus finíssimos dentes, lenta e ritualmente, até que dele
nada restou senão uma ligeira azia que a terrível amante combateu
com duas ou três dentadinhas numa folha de hortelã.
Ah. suspirou ela, que destino o meu!... amar é a minha perdição!...
E, rapidamente convocou as outras louva-a-deus para uma reunião
extraordinária, que veio a realizar-se no cimo de um loureiro,
de onde ninguém saiu sem que ficassem aprovados os estatutos
da nova-liga-feminina-para-a-defesa-dos-machos. Machistas!,
gritaram no final, em coro, as não aderentes, de temperamento
mais ardente ou de maior apetite. E, a partir daí, naquele imenso
campo de girassóis, as louva-a-deus ficaram divididas (até quando?)
em duas espécies: as que comem os machos e as que se deixam comer”.

Joaquim Pessoa

Canção Erótica




Alegria é este pássaro que voa
Da minha boca à tua. É este beijo.
é ter-te nos meus braços toda nua.
Sentir-me vivo. E morto de desejo.

Alegria é este orgasmo. Esta loucura
De estar dentro de ti. E assim ficar.
Como se andasse perdido e à procura
De possuir-te.
E possuir-te devagar...

Joaquim Pessoa

Uma por dia




Gosto muito de ti. Gosto de ti
como nunca gostei de mais ninguém.
E as coisas que sinto e que senti
são tantas e tão boas que um harém

não me daria um prazer assim.
Tão forte, tão bonito, tão intenso
que, juro, ou não me chame Joaquim,
que de ti, mais que muito, gosto imenso!

Nem tu fazes ideia da alegria,
do bom que é poder dar uma por dia
e às vezes mais que uma, por atraso.

E são tantas por ano as alegrias
trezentos e sessenta e cinco dias,
E a do ano bissexto, se é o caso!

Joaquim Pessoa

E quem sabe um dia talvez casar




Em vez de uma pachacha suculenta
preferes, bem peludo, um peito de homem.
A mim nada me importa o que os outros comem,
importa-me comer o que alimenta

o desejo carnal que me devora
o sexo e a riqueza dos sentidos.
O que mais interessa a ti são os maridos
mas eu prefiro um rabo de senhora

ardente como as dunas do deserto,
embriagante só de o ver por perto,
comovente depois de penetrado.

Mas se podes sentir coisas assim
feliz com algum homem, não é por mim
que vais ser impedido ou criticado.

Joaquim Pessoa

Gourmet




Teus grandes lábios para eu beijar!
E os pequenos também. Meter a língua
entre uns e outros para os provar
porque há mesmo diferença. Eu distingo-a.

Sabem os grandes a frutos africanos
às vezes com um toque a malvasia
quando a língua desliza até ao ânus.
Os pequenos sabem sempre a maresia.

Que entradas da mais bela refeição
que é o teu corpo todo sem exceção
pelo qual eu salivo de prazer!

Nenhuma das dietas necessárias
impede que essas coxas extraordinárias
sejam o que há de melhor para comer.

Joaquim Pessoa

Para grandes males, grandes remédios…




Sabia que voltavas. Estava à espera
que tudo se acalmasse. E acalmou.
Foi como o inverno frio que passou
e deu lugar por fim à primavera.

Chegaste ainda um pouco convencida
que a razão toda estava do teu lado
e eu que raramente estou zangado
procurei solução descontraída:

sentei-te no meu colo, acariciei
teus seios, tuas coxas, teu umbigo,
mordi a tua língua e já nem sei

quantas mais coisas fiz então contigo.
Porém, uma das coisas que te dei,
queres sempre a dobrar e eu não consigo.

Joaquim Pessoa

Tens dezenove...


Tens dezenove nos preliminares,
dezoito em sexo oral e quando fodes
vais sempre além do quinze, mas tu podes
melhorar muito a nota se estudares.

Quando te pões de gatas, é profunda
a satisfação no teste. Sem favor.
Mas do que mais gostava o professor
era dar um excelente à tua bunda.

A esse peito ereto dou um vinte
quando o acaricio com requinte,
babado como um porco por bolota.

Na grande faculdade que é a cama,
quanto mais se estuda, mais se ama,
e quanto mais amor, melhores notas.

Joaquim Pessoa

Pum catrapum pum


“Pum catrapum pum, pum catrapum pum”,
assim, todas as noites, tal e qual.
Ritmo como este nunca ouvi nenhum,
nem um concerto a vozes tão banal.

É sempre a mesma coisa. À mesma hora.
Já sei tudo de cor, está no ouvido.
Este casal que aqui por cima mora
não consegue passar despercebido.

Diz ela: “mete agora, assim, mais fundo…”,
Riposta ele: “isto é o fim do mundo!”,
fazendo o melhor de que é capaz.

Nestas casas do século dezoito,
chamadas pombalinas, não há coito
que nos deixe dormir a noite em paz.

Joaquim Pessoa

Mitos e realidades


Tens a coisa pequena mas que importa
se a questão nunca é do tamanho.
Ela pode ser grande e já estar morta
ou pequena e campeã do arreganho.

Ao centímetro não há felicidade
que possa ser medida, pois então!
Para poder impôr-se, a coisa há-de,
muito mais que tamanho, ter tesão.

É tudo o que deves ter em conta.
O resto é conversa rasa e tonta
se não promoçãozinha pessoal.

Só tens de cumprir o compromisso.
E não te esqueças nunca para isso,
tomar o compromisso também vale.

Joaquim Pessoa