sábado, 14 de novembro de 2009



XIII

Penso em teu sexo.
Reduzido o coração, penso em teu sexo
diante do raiar maduro do dia.
Digito o botão da felicidade, está preparado.
E desaparece o sentimento antigo
degenerando com prudência.
Penso em teu sexo, o sulco mais fecundo
e harmonioso que o ventre da Sombra,
embora a Morte possa conceber e gerar
o próprio Deus.
Oh Consciência
penso, sim, no animal livre
que copula onde quer, onde pode.
Oh , escândalo de mel dos crepúsculos
oh estrondo mudo
odumodnortse!

Cesar Vallejo




CESAR VALLEJO

César Vallejo nasceu em 16 de março de 1892 em Santiago de Chuco, região andina localizada ao norte do Perú, no seio de uma família com origens espanholas e indígenas, e morreu em 15 de abril de 1938.
Desde pequeno conheceu a miséria, mas teve o afeto familiar que longe do qual tinha um incurável sentimento de orfandade.
Estudou na Universidade de Trujillo, cidade onde descobriu a boemia influenciado por jornalistas, escritores e políticos rebeldes. Em Trujillo, Vallejo publicou seus primeiros poemas antes de chegar a Lima no final de 1917.

Nesta cidade lança seu primeiro livro: Los Heraldos Negros (impresso em 1918, lançado em 1919), um dos mais representativos exemplos de posmodernismo. Em 1920 faz uma visita a sua cidade natal e acaba se envolvendo em confusões que o levaram a cadeia aonde permaneceu por cerca de três meses; esta experiência teve uma profunda influência em sua vida e em sua obra, refletindo diretamente em vários poemas de seu segundo livro, Trilce (1922).

Considerada como uma obra fundamental pela renovação da linguagem poética hispanoamericana, pois em Trilce, Vallejo se afasta dos modelos tradicionais que até então havia seguido, adotando uma linha mais modernista e realizando um angustiante e desconcertante mergulho nos abismos da condição humana, que nunca antes haviam sido explorados.

No ano seguinte parte para Paris, aonde permanecerá (fazendo algumas viagens a União Soviética, Espanha e outros países europeus) até o fim de seus dias.
Em Paris, viveu em extrema pobreza e grande sofrimento físico e moral.
Participa com amigos como Huidobro, Gerardo Diego, Juan Larrea e Juan Gris de atividades de cunho vanguardista renunciando a sua própria obra Trilce e em 1927 aparece firmemente comprometido com o marxismo em sua atividade intelectual e política.

Escreve artigos para periódicos e revistas, peças teatrais, relatos e ensaios de intenção propagandistas, como Rússia em 1931. Inscrito no Partido Comunista da Espanha (1931) e designado para ser correspondente acompanha os acontecimentos da Guerra Civil e escreve o seu poema mais político: España, aparta de mi este cáliz, que aparece em 1939 impresso por soldados do exército republicano.

Toda a obra poética escrita em París, e que Vallejo publicou parcamente em diversas revistas, apareceria postumamente nesta cidade com o título:

Poemas humanos (1939).

Nesta produção é visível seu esforço em superar o vazio e o niilismo de Trilce e em incorporar elementos históricos e da realidade concreta (peruana, européia, universal) com os que pretendem manifestar uma apaixonada fé na luta dos homens pela justiça e solidariedade social.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Tens dezenove nos...


Tens dezenove nos preliminares,
dezoito em sexo oral e quando fodes
vais sempre além do quinze, mas tu podes
melhorar muito a nota se estudares.

Quando te pões de gatas, é profunda
a satisfação no teste. Sem favor.
Mas do que mais gostava o professor
era dar um excelente à tua bunda.

A esse peito ereto dou um vinte
quando o acaricio com requinte,
babado como um porco por bolota.

Na grande faculdade que é a cama,
quanto mais se estuda, mais se ama,
e quanto mais amor, melhores notas.

Joaquim Pessoa

Tua pele tem um quê




Tua pele tem um quê que não consigo
saber por que me deixa tão excitado.
Encostar-me a ti é sempre um perigo,
pior ainda se estiver deitado.

Saltam faíscas, raios e coriscos
numa atmosfera cheia de gemidos
e corremos, por isso, sérios riscos
de ficarmos chamuscados, derretidos

por tão embriagante alta-voltagem,
que em vez de meter medo dá coragem
para tentar um outro big-bangue.

E se meter em ti o meu rastilho,
então aí, amor, há mais sarilho
e explode tudo, tudo, até o sangue.


Joaquim Pessoa







JOAQUIM PESSOA

Poeta e Artista Plástico, Joaquim Pessoa nasceu no Barreiro em
1948. Foi Diretor Criativo e Diretor-Geral de várias Agências de
Publicidade e autor de diversos programas de televisão (1000
Imagens; Rua Sésamo; 45 Anos de Publicidade em Portugal, etc.). Foi
Diretor Pedagógico e Professor da cadeira de Publicidade no
Instituto de Marketing e Publicidade, em Lisboa, e professor no
Instituto Dom Afonso III, em Loulé, tendo desempenhado durante seis
anos o cargo de Diretor na Sociedade Portuguesa de Autores. Teve,
nas palavras de David Mourão-Ferreira, "um papel muito importante
no movimento renovador da canção portuguesa".
O seu primeiro livro foi editado em 1975 e, até hoje, publicou mais
trinta e duas obras incluindo três antologias. Em 2001 começou a
ser publicada a sua Obra Poética, em 7 volumes. Foi galardoado com
o mais importante prêmio nacional de Poesia: o Prêmio da Associação
Portuguesa de Escritores e da Secretaria de Estado da Cultura, e
ainda com o Prêmio de Literatura "António Nobre" e o Prêmio Cidade
de Almada.

Está representado em cerca de meia centena de antologias coletivas
em Portugal e no estrangeiro, e está referenciado em várias
enciclopédias, dicionários e roteiros literários. Depois de uma
Antologia Pessoal editada por Edilberto Coutinho em São Paulo, foi
publicada, pela universidade de São Petersburgo, uma Antologia
poética bilingue e a tradução integral de "Vou-me Embora de Mim",
uma das suas últimas obras.
Os seus textos constam igualmente de vários livros de ensino de
literatura e língua portuguesa. Está traduzido em inglês, francês,
russo, castelhano e búlgaro.


Algumas obras

O Pássaro no Espelho (1975)
Amor Combate (1977)
Canção de Ex-Cravo de Malviver (1978)
Os Olhos de Isa (1980)
Os Dias da Serpente (1981)
O Livro da Noite (1982)
O Amor Infinito (1983)
Fly (1983)
Sonetos Perversos (1984)
Peixe Náufrago (1985)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Sob o chuveiro amar



Sob o chuveiro amar

Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo — é água, esperma,
é amar se esvaindo, ou nos tornamos fonte?

Carlos Drummond de Andrade

ROMANCE


ROMANCE

Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhando já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena
Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.

Mário Faustino

MÁRIO FAUSTINO



MÁRIO FAUSTINO

Vida, amor e morte são temas capitais da poesia de Mário Faustino. Entrelaçados, esses elementos sustentam o seu timbre poderoso, erudito. A morte em Mário não é apenas um pretexto de escrita, uma vacilação. É anseio, pressentimento. A sua morte trágica em 27 de novembro de 1962, na explosão de um Boeing da Varig, confirmou a previsão de uma frenóloga de Nova York. Morreu aos 32 anos de morte anunciada e pressentida. Toda a sua obra é marcada de presságios, envolta numa aura dramática, tensa, onde a morte paira seu silêncio e vulto.

O poema Romance é exemplar dessa premonição. A respeito desta peça literária, a professora Albeniza Chaves, da Universidade Federal do Pará, se pronunciou: “O poeta experimentará situações místicas, pressentirá a proximidade do seu fim, sentirá, novo Cristo, o abandono e a traição, o peso e a ingratidão do mundo, fará, enfim, a sua via crucis sem conseguir resolver o enigma Vida-Morte, diante do qual seu sentimento é o trágico e o amor fati – aceitação heróica do destino”. Albeniza prossegue em sua análise: “Esse amor fati, ainda expressão de erotismo universal de Mário Faustino, tem algo de tragicidade inerente à atitude desafiadora do homem que procura uma estranha fé na Vida que a Morte revigora. É a confiança do ser desnudo, a fé na existência pela existência, que chega até mesmo a transformar a morte num acontecimento festivo, amado, esperado, como proclama a canção Romance: “Não morri de mala sorte/morri de amor pela morte”.

Poeta construtor, artífice, a mão suando cada verso, a palavra precisa em cada gesto, Mário – que também era jornalista – sabia das torturas que o poeta submete o vate desamparado. De nada adianta recorrer às musas simplesmente; é preciso pulsar a obra, concebê-la como universo a lapidar, suor, trabalho. Escrever – e escrever bem – é uma tarefa difícil, mas o poeta se atirou a essa penosa empreitada. Buscou em Eliot, em Pound, nos poetas da Antigüidade, as pilastras para a consumação de uma obra em vertiginosa ascensão.

Durante os anos em que editou a página Poesia Experiência, no Jornal do Brasil, mostrou sua verve crítica, a capacidade de reconhecer o verso preciso, a poesia fundamental em contemporâneos e avoengos. Comentava com precisão a metáfora ímpar e demolia sem titubear o texto empavonado e incompetente. Exigia dos autores o compromisso com a palavra, com a evolução da poesia. Exigia-lhes conhecimento do terreno, capacidade de superação.

Seu único livro publicado, O Homem e sua Hora, foi suficiente para dar a conhecer a sua voz poderosa. Poesia de tom nunca decadente, a de Mário. Em seu texto jamais o desleixo, a irresponsabilidade que conduz ao verso mal acabado à barbárie do poema sem convicção e sem unidade. Nesta edição, há bons exemplos de sua escritura. A palavra como ética, como expressão e como estética.

Mário nasceu no Piauí e aos nove anos mudou-se para Belém. O episódio da vidente de Nova York é significativo. Mário não levou a sério as previsões da astróloga e frenóloga sobre as péssimas conjunções do período. Riu-se o poeta, mas na hora de viajar adiou o quanto pôde, afinal a vidente havia conseguido revelar, sem erro, detalhes do passado de Faustino. Quando não era mais possível adiar, ganhou coragem e partiu. Antes, cheio de desconfiança, deixou com a mãe adotiva (sua cunhada) instruções de como proceder caso a fatalidade... ah, a fatalidade...

Os que falaram com Mário antes da viagem revelaram-no tranqüilo. Tranqüilo, voou nas asas da morte. Partiu, deixando um vácuo na vida literária brasileira. Sim, porque não são poucos os que afirmam que a página Poesia Experiência até hoje não encontra par pela contribuição que promoveu do fazer poético, pela crítica contundente e pelo debate teórico profundo e refinado.

Mário Faustino era bem o crítico arguto, exigente, implacável, que não poupava nomes da envergadura de Drummond e João Cabral de Mello Neto, sem falar em Vinicius de Moraes. Do poeta de Claro Enigma, afirmou convicto e quase cruel que nunca seria um Pound, um Elliot, pois faltava-lhe “participação”, deixar de agir poeticamente só pelos poemas que publicava e discutir a sério a poesia. Outra: “Cala-se. Não manifesta grande interesse pelo progresso da poesia”, cobrou a certa altura do competentíssimo Drummond.

Mas sua fina percepção sabia reconhecer as virtudes de cada um. Jorge de Lima ainda não havia sido suficientemente apreciado, e Faustino lhe teceu fervorosos elogios, dizendo-o um “finado mais vivo que todos os que sobreviveram”, apesar de, segundo ele, não ter incendiado, em suas revoluções, muitos dos templos em que deveria ter ateado fogo. “Libertou-nos de muita sintaxe, de muitos cacoetes – materiais e formais – porém estimulou outros. É muita coisa, mas não basta”, sentenciou.

À frente da Poesia Experiência,Mário incendiou o panorama literário brasileiro entre setembro de 1953 e novembro de 1958. Com o lema “Repetir para aprender, criar para renovar”, foi o primeiro a apoiar o Concretismo. Crítico seguro, um dos mais conscientes de sua geração, pôs por terra a fama de muitos autores erroneamente endeusados e cobrou avanços de outros tantos, ao mesmo tempo em que recuperou de nomes de valor que estavam soterrados, e revelou outros.

Porém não atravessou em mar tranqüilo a dissecação que operou sobre o corpo estirado da poesia brasileira. Sofreu – como não poderia deixar de acontecer a um polemista – ataques à sua forma de proceder a revisão dos autores do passado e de sua época.

Com o escritor Haroldo Maranhão e o ensaísta Benedito Nunes (um ícone da teoria literária da atualidade e um dos principais críticos de Faustino), o poeta fundou a revista Encontro,que não passou do primeiro número. Mário e Nunes fizeram a revista em Belém e a enviaram para Haroldo Maranhão, no Rio de Janeiro. Fiel ao seu estilo cáustico, Maranhão não hesitou a folhear o material: “Está uma m...!”. Acabou-se assim Encontro, mas os amigos permaneceram juntos, discutindo e trabalhando no suplemento literário do jornal “Folha do Norte”, do Pará.



Mário viajou para os Estados Unidos, a fim de estudar no Pomona College, com bolsa do Rotary International. Um ano depois voltou a Belém, onde trabalhou na extinta Spvea (atualmente Sudam). A trabalho, viajou para o Rio de Janeiro, onde o cargo de professor-assistente na Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas. Depois, foi para o Jornal do Brasil, onde estreou com Poesia-Experiência e depois assumiu a Editoria de Política. Viajava para Cuba como correspondente na área quando o avião chocou-se com o Cerro de La Cruz, próximo a Lima. Junto com ele foram-se os originais de um novo livro, sem título, e que o poeta paraense Ruy Barata – um dos raros a lê-los – disse que já se distanciavam dos de O Homem e sua Hora e que eram brilhantes. A pedra dura, a mão rochosa do destino despetalou a não rosa. E Mário, obcecado pela palavra, foi-se para sempre, com seu poema alado.



Fonte: Site Arte Livre

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

DÁ-ME A FESTA MÁGICA



DEUS – e de onde é que tiras para acender o céu
este maravilhoso entardecer de cobre?
Por ele soube encontrar de novo a alegria,
e a má visão eu soube torná-la mais nobre.

Nas chamas coloridas de amarelo e verde
iluminou-se a lâmpada de um outro sol
que fez rachar azuis as planícies do Oeste
e verteu nas montanhas suas fontes e rios.

Deus, dá-me a festa mágica na minha vida,
dá-me os teus fogos para iluminar a terra,
deixa em meu coração tua lâmpada acendida
para que eu seja o óleo de tua luz suprema.

E eu irei pelos campos na noite estrelada
com os braços abertos e a face desnuda,
cantando árias ingênuas com as mesmas palavras
com que na noite falam os campos e a lua.


Pablo Neruda
Tradução: José Eduardo Degrazia



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contigo



nas brumas do escuro mar
ou nas areias frias de um deserto
num breve segundo, a eternidade
nas tristes sombras da saudade
impensada dor da minha treva

depois, de tão cansada caminhada
de solitária dor, alma sofrida
pelos caminhos rudes desta lida
contigo, em meus braços, minha vida,
...impensada luz da minha treva

reginahelena
(sem verbo)